O filme “Guerreiras do K-pop” se consagrou com um dos maiores sucessos da animação.

A produção superou a marca de mais de 230 milhões de visualizações na Netflix, tornando-se o filme mais assistido da plataforma. Além do sucesso de audiência, a música “Golden”, do grupo musical HUNTR/X, e as faixas “Your Idol” e “Soda Pop” do grupo rival na trama, Soja Boys, chegaram ao Top 5 da Billboard. 

As conquistas superaram as faixas do clássico filme “Os Embalos de Sábado a Noite”, depois de 45 anos do lançamento da produção protagonizada por John Travolta.

Todos os números refletem a paixão do público pelo universo criado em “Guerreiras do K-pop” e na maneira que o filme e as músicas se tornaram pauta na discussão pública, não apenas pela história e músicas chicletes e inspiracionais, mas também pelas análises acerca da cultura coreana.

Movida pela enredo e o passado da Coreia do Sul, a criadora de conteúdo, Jay (@merajorphosis), publicou na rede social TikTok uma perspectiva sobre o filme retratar a maneira que o Japão eliminou os tigres coreanos durante a colonização. O vídeo viralizou, alcançando cerca de 1.2 milhões de visualizações e mais de 200.000 curtidas. 

No vídeo, Jay aparece com um semblante cauteloso, enquanto lê-se na tela:

“Acabei de descobrir que o Japão acabou com todos os tigres que a Coreia teve por gerações, no século passado, depois de assistir e pesquisar sobre a história dos tigres em ‘Guerreiras do K-pop’”.

O tigre que Jay menciona é Derpy, o animal que aparece ao lado de Sussie, a ave de três olhos, e é responsável por guiar os personagens nos caminhos da vida e do pós-vida. Segundo o Korea Times, o estilo de animação do tigre foi inspirado nas pinturas “hojakdo” durante a Era Joseon (1392-1910).

A criadora de conteúdo relatou que se interessou pelo charme de Derpy, o que fez com que ela buscasse sobre o animal e descobrisse a história por trás da exterminação dos tigres coreanos.

O que a história diz?

Os tigres foram considerados animais perigosos na época da colonização japonesa no território sul-coreano. A categorização dos felinos incentivou a caça dentro do pretexto de “proteção” que os colonizadores afirmavam buscar. Porém, os historiadores relatam que, na verdade, era mais uma estratégia japonesa para erradicar a cultura e identidade da Coreia do Sul, uma vez que o tigre foi adotado como símbolo do nacionalismo coreano durante a imposição japonesa. 

O Japão tentou ressignificar a imagem do tigre ao pegar os corpos inertes dos animais e se vangloriar de tê-los conseguido matar, o que é uma prática comum quando se pensa em colonialismo: apropriar e ressignificar símbolos nativos com o propósito de apagar a origem e significado verdadeiros.

Segundo o historiador Lee Yong Woo, os sul-coreanos enxergam os tigres como criaturas benevolentes e malevolentes — nessa ambiguidade mesmo —, de acordo com os primeiros textos culturais do período pré-moderno da Coreia. Eles eram venerados como mensageiros do espírito da montanha, San-sin, e eram conhecidos também como inimigos do mal e protetores dos virtuosos. A população desenhava a figura do grande animal em talismãs e outros itens de proteção. 

Com isso, entende-se como os tigres fazem parte da história coreana ao transmitir força, coragem e proteção e “Guerreiras do K-pop” trata sobre isso também.

Afinal, “Guerreiras do K-pop” fala sobre isso?

Tudo o que temos acesso, como filmes, música, livros, pinturas e outras formas de expressão representam o tempo em que estão inseridos. Mesmo as produções que falam de situações do passado, ainda transmitem uma mensagem sobre como é — ou foi — o presente em que estavam, justamente por tratarem sobre o passado, muitas vezes, utiliza-se uma ótica do presente, o que proporciona uma leitura por si só do contexto. 

Até mesmo as produções consideradas mais superficiais e “menos artísticas”, ainda são objetos de estudo, como podemos observar na arte pop e até mesmo nas pinturas realistas, que já foram criticadas por não expressarem nada além da realidade (e, hoje em dia, conseguimos ter um vislumbre do passado devido aos estudos sobre elas também).

Então, quando vemos que “Guerreiras do K-pop” provocou esse debate online, entendemos o quãopoderosa a cultura é ao fomentar discussões e pesquisas sobre outras realidades. 

Sobre o que a influenciadora comentou, do ponto de vista histórico, faz sentido. Os tigres são importantes na cultura sul-coreana e, por causa das representações dos felinos, pode-se entender a história da Coreia do Sul. Apesar de no vídeo ela não se estender muito ao falar sobre o tema, foi o suficiente para que as pessoas e os veículos jornalísticos ao redor do mundo se interessassem e pesquisassem sobre o tópico  para que pudessem falar com mais propriedade e referências históricas sobre algo tão importante. Então, a influenciadora foi perspicaz ao levantar o assunto.

Porém, arrisco ir um pouco mais longe na interpretação do tigre em “Guerreiras do K-pop”. 

Estamos falando de um filme que retoma o poder da música e, no contexto em que a Coreia do Sul ascendeu globalmente por meio da exportação de cultura, é ainda mais significativo pensar na história das HUNTR/X e, até mesmo, a dos Saja Boys, pois os dois grupos entendem como a música quebra barreiras e conecta as pessoas. 

E a conexão não é apenas entre artistas e fãs, mas também entre gerações. As meninas do grupo musical fazem parte de uma longa linhagem de musicistas que protegiam o mundo por meio da música. Novamente, a música é colocada como essa linha que conecta o passado e o presente da Coreia do Sul, o que cria esse senso de comunidade do povo sul-coreano ao respeitar o passado e celebrar o presente.

E onde entra o Derpy?

Com sua figura assombrosa, mas amigável — o que faz jus às representações tradicionais — ele funciona como essa ponte entre o “lado do bem” e o “lado do mal”, influenciando a trama de maneira simples e cômica, ao mesmo tempo que une duas pessoas que, por mais que sejam de origens similares, a Coreia do Sul, estão lutando entre si, sendo que os dois são vítimas também de algo externo. Dessa maneira, é interessante pensar em como o tigre representa a tradição que une o povo, enfatiza a importância da história e dos antepassados e promove a proteção e paz entre os lados, mostrando que o povo coreano é mais forte quando estão juntos e, assim, podem derrotar o grande vilão que os dominava.

Assim, a própria existência do felino no filme é suficientemente importante, pois provocou essa pesquisa sobre os tigres na Coreia do Sul, que logo nos permite entender a importância dele para a cultura sul-coreana e, consequentemente, enriquecemos nossa visão sobre o papel dele no filme, que pode ser pequeno, mas se apresenta como um símbolo tão forte que movimentou toda uma discussão.