Antes de se tornar uma famosa cartunista, Min Anny desenhava para entender o mundo e encontrar seu lugar nele. Em uma Coreia do Sul carregada de traumas da Guerra da Coreia e a censura militar do governo de Park Chung Hee, Min Shin Sik (seu nome de batismo) transformou o papel e lápis em refúgio para diversas pessoas. Isso reflete em seu nome artístico, que surgiu da vontade de criar uma persona próxima e acessível para os leitores, como uma extensão da sua personalidade carinhosa, conversando com outras meninas e mulheres que, assim como ela, cresceram em uma sociedade restrita e silenciosa.
Mesmo que tenha começado como uma forma de se expressar, seus desenhos se tornaram uma forma de resistência com a publicação de “White Sailboat” (1973), uma história sobre o relacionamento de duas adolescentes. Ainda que, à primeira vista, a narrativa seja discreta, ela era ousada o suficiente para marcar diversas leitoras em um contexto ditatorial onde até beijos heterossexuais eram proibidos nas expressões artísticas. Sua liberação da censura se deve, em partes, por conta da linguagem sutil com que tratava “temas inapropriados”, permitindo que, de maneira discreta, Anny abrisse espaço para outras formas de representação de amor e identidade em um país que sequer se expressa abertamente sobre isso atualmente.

Seus desenhos sempre traziam essa característica: expressar o que não se podia dizer. Isso é um reflexo da própria infância da cartunista, como contou ao The Korea Times, que, ao crescer em uma casa onde o afeto era pouco verbalizado, começou a utilizar a arte como tentativa para entender seus sentimentos e dos outros:
Na cultura coreana, especialmente dentro da minha família, expressar sentimentos era algo raro. Desenhar foi minha forma de tentar entender o que estava acontecendo ao meu redor – comentou em entrevista ao The Korea Times.
Aos 82 anos, Min Anny se aproxima do público com seu canal “Senior Cartoonist Anny Min”, no YouTube, onde suas artes passaram a encontrar pessoas de todos os lugares do mundo. Na plataforma, ela conversa sobre saúde mental, solidão e mudanças culturais e produz desenhos de idols famosos do k-pop, como o Jimin (BTS), a NingNing (aespa) e até mesmo os membros do famoso Saja Boys, do “Guerreiras do K-Pop”.
Em entrevista exclusiva à K4US, a artista relembra pontos importantes da sua carreira, como o desafio de criar durante a ditadura militar sul-coreana, seus pensamentos sobre a comunidade LGBTQIAPN+ e futuros objetivos da sua carreira.
Confira a entrevista:
Primeiramente, agradecemos pela oportunidade de entrevistá-la. Gostaria de começar perguntando: Como foi o processo de confrontar as censuras ao longo do regime militar e o que te inspirou a seguir criando novas artes nesse período?
Durante o regime militar das décadas de 1960 e 1970, o ex-presidente Park Chung Hee fez um ótimo trabalho ao desenvolver a economia de um país que estava pobre após a Guerra da Coreia.
No entanto, o “Comitê de Ética Editorial” do regime realizava censura prévia, e seus executivos eram obcecados em alcançar resultados sem qualquer compreensão das artes. Sob o pretexto de promover a consciência ética entre os estudantes, eles censuravam previamente todas as formas de arte popular, incluindo música pop, histórias em quadrinhos, filmes de animação, filmes e programas de TV.
No entanto, movidos pela paixão de criar obras, os alunos se esforçaram ao máximo para produzir conteúdo que fosse o mais familiar e inspirador possível. Eles se empenharam em criar obras que trouxessem felicidade e esperança àqueles que perderam suas famílias, sofreram com a pobreza e enfrentaram doenças após a Guerra da Coreia.
Como foi para você, como mulher, investir nesse sonho numa época em que além dos cartoons serem pouco valorizados, as mulheres possuíam pouco espaço na sociedade?
Como mencionei na minha resposta anterior, após a guerra, quando os tempos eram difíceis, não havia muitas televisões ou rádios nos bairros e era difícil assistir a filmes. Eu queria desenhar quadrinhos que fizessem as crianças sorrirem, lhes dessem esperança e as ajudassem a compartilhar sentimentos calorosos entre si. Desenhar quadrinhos e criar histórias era algo que eu realmente queria fazer.
No entanto, socialmente, os quadrinhos eram considerados um meio inferior e barato, além de “livros ruins” (mídia prejudicial) que atrapalhavam os estudos das crianças. No início, até mesmo os adultos ao meu redor se opunham ao fato de eu desenhar quadrinhos, e havia momentos em que nem podia mencionar que era uma artista de quadrinhos.
Até a década de 1960, havia uma forte crença de que o papel da mulher era casar e cuidar da casa. No entanto, à medida que meus mangás ganharam popularidade entre as crianças e me tornei conhecida como uma artista que criava mangás infantis saudáveis e adequados para toda a família, acabei recebendo muito amor e apoio.
Em outra entrevista, você contou sobre sua obra GL “White Sailboat” e como por meio dela você deu aos censores “um gostinho do seu próprio veneno”, já que naquela época “o que eles sabiam sobre relacionamento queer?”. Mesmo com as mudanças desde 1973, ainda há muito a melhorar para a comunidade LGBT+. O que você pensa sobre essa onda de conservadorismo que tem se espalhado pelo mundo?
Em 1973, publiquei “White Sailboat”. Na época, a sociedade coreana e o “Comitê de Ética Editorial” acreditavam que os relacionamentos românticos entre homens e mulheres só eram possíveis após atingirem a idade adulta. Portanto, se uma história em quadrinhos para crianças retratasse um relacionamento romântico entre um homem e uma mulher, ela seria descartada.
Mesmo que não houvesse um relacionamento romântico, se um homem e uma mulher que não fossem membros da família estivessem simplesmente frente a frente, o comitê solicitaria que a ilustração fosse revisada. No entanto, cenas em que mulheres gostavam umas das outras (sem implicar amor sexual) eram aceitas como relações fraternas e aprovadas na revisão. Os membros do comitê de revisão não tinham nenhum conceito de GL. Além disso, “White Sailboat” era um conto de fadas fantástico onde ambas as protagonistas femininas se apaixonavam após beberem uma poção mágica, por isso passou na revisão.
Minha opinião sobre as minorias sexuais na era atual é que cada pessoa é um ser precioso e o amor é a energia mais poderosa do universo, então ninguém pode ditar quem deve ou não amar quem. O amor verdadeiro é precioso. No entanto, espero que as pessoas não se tornem excessivamente obcecadas por relacionamentos apenas em busca de prazer. – Min Anny.
Atualmente, webtoons e manhwas se tornaram bastante populares na Coreia do Sul, chegando a ultrapassar as barreiras geográficas e alcançando diversos públicos e, entre estes, a comunidade LGBTQIAPN+. Como é para você ver essas conquistas, tendo acompanhado o cenário cartoonista do país por todos esses anos?
Deixe-me falar brevemente sobre minha infância e história. Nasci em 1942 e, quando tinha três anos, em 1945, a Coreia foi liberta da ocupação japonesa. Então, quando tinha oito anos, de 1950 a 1953, vivi a Guerra da Coreia, que deixou o país em ruínas.
Durante a guerra, minha família fugiu de Seul para o interior, de onde vimos muitas casas destruídas e cadáveres, e encontramos muitos refugiados. Mesmo após o armistício, a Coreia continuou sendo um dos países mais pobres do mundo. Como mencionei antes, o regime militar da época reprimiu a arte popular e tratou os quadrinhos como um meio negativo, mas é muito gratificante e encorajador ver que, nos últimos 50 a 60 anos, à medida que o país se desenvolveu, os webtoons e a animação também se desenvolveram com ele.
Ao ver os webtoons sendo adaptados para filmes e dramas, penso: “O mundo é realmente um lugar onde vale a pena viver por muito tempo”, e tenho orgulho da geração mais jovem de artistas que está criando obras excepcionais. Além disso, estou sinceramente feliz que a percepção dos quadrinhos tenha mudado significativamente, tanto nacionalmente quanto entre o público internacional, de serem vistos como uma mídia prejudicial que atrapalha os estudos dos alunos para serem reconhecidos por seu mérito artístico.

Em seus quadrinhos românticos, há sempre essa sensação calorosa de conexão humana, compartilhar momentos sejam eles bons ou ruins. Para você, o amor ainda é o mesmo sentimento que te inspirou a desenhar no início da sua carreira, ou ele foi ganhando novos significados com o tempo?
Quero dizer que a energia mais poderosa do universo que sustenta a vida é o amor.
Acredito que todos nascemos neste mundo para amar, compreender e respeitar uns aos outros. O egoísmo, a ganância, a inveja e o medo dividem as pessoas, causam guerras e destroem nossa Terra paradisíaca. Acho que o amor é uma energia imortal.
Qual foi a primeira vez que o k-pop te chamou atenção e como você construiu essa relação?
Sou um grande fã de filmes desde jovem. Naquela época, muitos filmes de Hollywood eram exibidos nos cinemas, mas, em princípio, os estudantes não podiam ir ao cinema. Mas, eu entrava escondida na sala escura, assistia ao filme e ficava fascinado pelos belos atores.
Recentemente, esse interesse pela mídia de massa mudou para o k-pop. Acho que é o senso do artista simpatizar com o interesse e a tendência do público. É claro que ainda gosto de assistir a filmes, mas os belos cantores e cantoras realmente me inspiram a desenhar. Então, à medida que desenhava constantemente no YouTube, as pessoas me pediram para desenhar outros cantores, então continuo desenhando.

Quando não está desenhando o que gosta de fazer? Esses passatempos servem de inspiração para suas artes também?
Quando faço uma pausa no desenho, assisto a novos filmes na Netflix e, às vezes, assisto a filmes antigos e séries na TV a cabo e relembro o passado. Observo e estudo cuidadosamente as expressões dos atores e as uso como referência ao desenhar as expressões dos personagens.
Mesmo após aposentada, você continua perseguindo a arte como um hobby, tem algum sonho que ainda deseja conquistar?
Para mim, não existe aposentadoria. Acredito que minha última obra, que pintarei no meu último dia de vida, será minha obra-prima, e que tudo o que faço agora é apenas prática. Portanto, diria que meu sonho é que muitas pessoas continuem admirando minhas pinturas.
Olhando para trás e analisando todos esses anos de trabalho, que conselho você daria para Min Anny do passado? E para os artistas que estão começando agora?
O que eu gostaria de dizer ao meu “eu” do passado e aos artistas que estão começando é o mesmo.
Não importa o quão difícil a vida possa ser, ela é apenas temporária, então mantenha-se forte. Nada pode impedir você de fazer o que ama. Pessoalmente, acredito que Deus me deu o talento para criar Min Anny e enviá-la ao mundo para levar alegria às pessoas através dos meus desenhos.
Acredito que, se todos fizerem o que querem e amam fazer com alegria, ajudando, compreendendo e amando uns aos outros para viver em harmonia, esta Terra se tornará um paraíso. – Min Anny.

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