“O Paraíso dos Espinhos” é um filme estrelado por Jeff Satur, Engfa Waraha e Keng Harit. Estreado oficialmente nos cinemas da Tailândia em 2024, o longa conquistou inúmeros prêmios da temporada, incluindo Melhor Ator, Atriz e Filme, além de vários prêmios técnicos como Melhor Direção, Roteiro, Fotografia e Música original, em diferentes premiações tailandesas e asiáticas.

O que você faria se a pessoa que você ama e com quem construiu a vida morresse inesperadamente e a família dela herdasse tudo o que vocês construíram juntos? É isso que acontece com Thongkham (Jeff Satur) em “O Paraíso dos Espinhos”.

Após a morte de Sek (Pongsakorn Mettarikanon) seu parceiro, Thongkham se vê perdido quando descobre que a lei tailandesa da época não ampara seu relacionamento com Sek. Agora com a mãe de Sek (Srida Puapimol) herdando a casa e a fazenda que construíram juntos, Thongkham está determinado a conseguir de volta o que deveria ser seu por direito.

Essa é a premissa inicial do filme, mas devo confessar que ela não cobre nem metade dos rumos que essa história toma. As coisas vão acontecendo e escalonando de um jeito que ainda na metade do filme estava me questionando “o que mais falta acontecer com esses personagens?”

Assim que damos o play, a fotografia encanta e impressiona, com suas paisagens, tons e perspectivas que dão ao filme um charme único e contrasta com todo o drama de sua história. São vários takes do céu, da fazenda e das árvores de durião (planta cultivada por Sek e Thongkham). Além disso, diferentes cenas paralelas entre si são usadas para evidenciar ainda mais os contrastes da trama.

Nesse sentido, a ambientação do filme também se destaca, é perceptível o cuidado com os detalhes. A casa de Thongkham, por si só, conta uma história, mostra como tudo foi construído aos poucos, como os dois viviam juntos e compartilhavam a vida. Aos poucos, com a chegada da mãe de Sek e de Mo (Engfa Waraha), vemos o local se transformar e perder a essência, deixando de ser o lar deles.

Esses detalhes corroboram para dar ainda mais credibilidade ao roteiro, que é muito bem desenvolvido, a história vai se desenrolando e aos poucos revelando respostas até chegar no clímax, com a cartada final que termina de nos tirar o fôlego. Tudo isso em um ritmo tão bom que nem percebemos que duas horas de filme se passaram.

Todos esses pontos positivos que destaquei, por mais que contribuam para a qualidade do filme, talvez não seriam tão bem aproveitados se “O Paraíso dos Espinhos” não contasse com personagens tão bem construídos e um elenco excelente.

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Mesmo gostando mais de um personagem do que de outro, a construção deles é tão bem feita que é impossível não os entender. Aqui não tem vilão ou mocinho, todos são personagens complexos que sofreram diversos infortúnios devido à dureza e, muitas vezes, crueldade da realidade em que vivem e que estão fazendo o melhor que conseguem para viver, por mais que acabem não sendo justos uns com os outros.

Isso é muito bem trabalhado quando pensamos em Thongkham e Mo. Eles estão na mesma situação, mas sob perspectivas diferentes: o primeiro é um homem gay que não pode ter o relacionamento legalmente reconhecido pelo Estado, a segunda é uma mulher hétero que não tem a união estável reconhecida pelo Estado. Ambos estão igualmente determinados a não perderem o pouco que conseguiram construir e que deveria ser deles por direito.

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São essas perspectivas que movem o filme e nos levam a refletir sobre diversas questões relacionadas à família e ao casamento, principalmente no que diz respeito a direitos. Na Tailândia, a união estável não é legalmente reconhecida e o casamento igualitário só se tornou reconhecido em 2025, o que me faz pensar sobre os inúmeros casais, ao longo de todos esses anos, que tiveram que enfrentar dificuldades semelhantes as dos personagens.

No que diz respeito à atuação, todos os prêmios foram mais que merecidos. Jeff Satur entregou uma emoção e um carisma tão grandes que é impossível não tomar partido do personagem nos primeiros 10 minutos de filme. O mesmo vale para Engfa, a personagem é bastante complexa e a atriz soube trazer todo o drama e sentimentos necessários para fazer ser impossível não se sensibilizar com ela.

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Vale mencionar ainda que parte da equipe de produção de “O Paraíso dos Espinhos” é a mesma do drama BL de sucesso “I Told Sunset About You” (2020), incluindo diretores, roteiristas, compositor, fotógrafo e diretor de elenco. Se você já assistiu ao drama, provavelmente notou certa semelhança, principalmente na fotografia.

Por fim, “O Paraíso dos Espinhos”, por mais trágico que seja, finaliza de forma bastante poética: os duriões, que a princípio são fruto do amor e do sonho, se tornam a ruína; Todos eles só queriam ser felizes, ter o paraíso, mas no final o que restou foram apenas os espinhos. O sentimento que fica é bem amargo, o que torna toda a trama do filme ainda mais realista e emocionante.

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“O Paraíso dos Espinhos” é uma obra de arte audiovisual, é dramático, sensível, cruel e reflexivo. Se você procura por algo diferente, interessante e de qualidade técnica, esse filme é a escolha perfeita, só prepare o coração para a jornada que está por vir.

10/10

O Paraíso dos Espinhos

Título original: วิมานหนาม

Ano de lançamento: 2024

Direção: Boss Naruebet Kuno

Roteirista(s): Kate Karakade Norasethaporn, Junior Naron Cherdsoongnern

Elenco: Jeff Satur, Engfa Waraha, Srida Puapimol, Keng Harit Buayoi