“Coração de Vidro”, j-drama da Netflix, tem produção excelente, mas o desenvolvimento é mediano
“Coração de Vidro” é o mais recente j-drama da Netflix, lançado no último dia de julho. Inspirado na obra de Wakagi Mio, que fez grande sucesso no Japão entre 1993 e 2011 e hoje é considerada um clássico, a produção traz adaptações no roteiro para se encaixar na atualidade.
A trama acompanha Saijo Akane (Miyazaki Yu) que, após ser expulsa de sua banda, é convidada a se juntar ao brilhante músico Fujitani Naoki (Satoh Takeru) em sua nova banda, a TENBLANK. Assim, ao lado dos outros integrantes, Takaoka Sho (Machida Keita) e Sakamoto Kazuchi (Shison Jun), embarcam juntos em uma jornada repleta de desafios para lançar a TENBLANK e conquistar seu espaço na indústria musical.
A premissa do j-drama é instigante, prometendo reflexões sobre a vida, as relações humanas e o poder da música em conectar tudo isso. No entanto, essas reflexões acabam se limitando quase exclusivamente ao personagem Naoki, contrariando a expectativa criada inicialmente.
Naoki é o típico protagonista masculino de histórias japonesas: brilhante, excêntrico e incompreendido pelo mundo. Isso não seria um problema se a narrativa equilibrasse melhor o desenvolvimento dos demais personagens. Porém, o excesso de foco nele torna a trama previsível e, em certos momentos, cansativa.
Mesmo que o ponto de partida seja a jornada de Akane em busca de sua própria voz como artista, esse arco perde espaço à medida que Naoki se torna seu interesse amoroso, ofuscando seu desenvolvimento individual. O mesmo acontece com Sho e Kazuchi, que têm potencial para histórias próprias, mas acabam servindo como satélites de Naoki. Até mesmo o antagonista, o produtor musical Isagi, cujo passado com Naoki poderia render discussões interessantes sobre indústria, talento e criação, acaba preso à órbita do protagonista.
A única personagem que parece fugir disso é a cantora Sakurai Yukino (Takaishi Akari), que carrega certa complexidade que, mesmo ligada a Naoki, tem seu crescimento movido por motivações próprias.
O desenvolvimento do famigerado Fujitani Naoki convida o espectador a refletir sobre as escolhas de vida e seus impactos sobre quem nos cerca. A música, para ele, é a única forma de expressar sentimentos e pensamentos, tanto que, em diversos momentos, ele pede desculpas pelo efeito de seu “som” nos outros, enquanto personagens próximos alertam Akane a não deixar que esse mesmo som a destrua. Naoki representa o duplo poder da arte: capaz de nutrir e, ao mesmo tempo, consumir quem a produz. Para ele, a música é o oxigênio da alma, e viver sem compor não faria sentido.
E com esse grande foco na música, apesar dos pontos abordados até aqui, “Coração de Vidro” impressiona com a produção excelente e todo o cuidado em priorizar a experiência musical do telespectador. Desde filmagens dinâmicas a apresentações gravadas ao vivo, tudo colabora para a imersão, principalmente nos momentos de show.
Esse cuidado é resultado, em parte, da presença de Noda Yojiro, artista multifacetado e integrante da banda RADWIMPS, na produção e na composição de algumas músicas. Outros artistas também colaboraram com faixas que combinam qualidade, significado e conexão direta com a narrativa.
A presença de diferentes artistas na composição das músicas da banda também destaca a relevância da experiência musical na produção, visto a qualidade das composições, as letras com significado e que se conectam com a história que está sendo contada.
Os atores da TENBLANK passaram por treinamento para tocar instrumentos e cantar, o que se reflete nas performances ao vivo gravadas para o drama. O último episódio, praticamente todo dedicado a um show da banda, é um exemplo perfeito dessa imersão e torna difícil não se envolver com a energia da apresentação.
“Coração de Vidro” é um j-drama de grande qualidade visual e sonora, que, apesar de conseguir entregar uma história reflexiva, poderia ter sido muito mais emocionante e tocante se tivesse explorado igualmente as nuances de todos seus personagens.
6/10
Coração de Vidro
Título original:グラスハート
Ano de lançamento:2025
Direção:Kakimoto Kensaku, Goto Kotaro
Roteirista(s):Tomoko Akutsu, Okada Mari
Elenco:Satoh Takeru, Miyazaki Yu, Machida Keita, Shison Jun
Episódio(s):10
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