Você também era do time de mandar bilhetinho pro amigo no meio da aula? Porque eu fazia isso direto. Para evitar o evento canônico de ser pega pelo professor e ter o recado lido em público, eu e meus amigos inventávamos gírias e bobeiras para confundir a leitura de quem não fazia parte do grupinho. Do outro lado do mundo, na China, e muito tempo antes de mim, 400 anos atrás, para ser mais exata, as chinesas já praticavam algo nesse sentido.

De modo mais sofisticado e com fins mais apropriados que os meus, as mulheres da China desenvolveram um alfabeto próprio, o Nushu. Criado por elas e para elas, a escrita surgiu entre as chinesas no condado Jiangyong, uma região dominada por homens. Na época, as mulheres não tinham acesso à educação e, portanto, à escrita.

O nushu surge, então, como um grito de resistência. Por meio desse alfabeto, as mulheres trocavam cartas, canções e até bordados.

Senta que lá vem História

O ensino do nushu era feito, principalmente, por mães a suas filhas, mas praticado por diversão entre irmãs e amigas. Além disso, segundo a pesquisa da Unesco, o alfabeto era usado para escrever autobiografias, cartas para irmãs monjas, e as “cartas do terceiro dia” (sanzhaoshu), enviadas por amigas mais próximas de uma noiva e enviadas três dias após o casamento, com votos de felicidade.

Para a professora Zhao Liming, da Universidade Tsinghua, em Pequim, o nushu é mais que um sistema de escrita. O alfabeto representa uma cultura tradicional das mulheres chinesas e ia além, era fonte de conforto para as praticantes. “É uma cultura solar”, comenta a docente, “que permite às mulheres dar opiniões com suas próprias vozes e lutar contra o chauvinismo masculino”.

As mulheres usavam sua própria escrita para contar histórias, reconfortar-se umas às outras, cantar suas mágoas e expressar admiração. No processo, construíram um paraíso. – Zhao.

Aliás, um dos artefatos chineses mais antigos já encontrados é uma moeda com escritos em nushu. Descoberta durante o período da dinastia Taiping (1851 – 1864), possuía oito caracteres gravados que significam “todas as mulheres do mundo são membros da mesma família”. E, sinceramente, eu concordo com todas as minhas forças. Esse reinado, inclusive, foi um dos primeiros a introduzir políticas relativas à igualdade de gênero, o que, possivelmente, colaboraram para a criação do nushu.

“É como um santuário para nós”

Em 2004, a última escritora e guardiã do nushu, a centenária Yang Huanyi, faleceu. Se você pensa que o alfabeto morreu com ela, respire aliviade. Recentemente, o interesse pela escrita ganhou espaço entre as chinesas do século XIX. Para a estudante Pan Shengwen, por exemplo, nushu “é como um tipo de santuário para nós”, afirma. “Podemos expressar nossos pensamentos, confiar-nos entre irmãs, falar sobre tudo.”

nushu
Yang Huanyi. Foto: Ibrachina.

Além da militância e o significado histórico do alfabeto, a escrita é visualmente elegante, com traços alongados e desenhados com controle, característica que colaborou para reascender o interesse pelo nushu, especialmente entre estudantes de artes.

Desde 2002, o governo chinês implementou diversas ações para preservar o alfabeto, visto que ele se tornou parte do Registro Nacional de Patrimônio Documental, sendo também oferecido em oficinas no condado de Jiangyong. Além disso, foi tombado como patrimônio cultural imaterial nacional e ganhou um museu na Ilha de Puwei, lar de muitas autoras de nushu.

Um projeto complexo

Para além das medidas já adotadas, Zhao trabalha com uma equipe de especialistas para unificar o nushu, já que o alfabeto tem variações conforme o dialeto local. Unificar a falta de padrão coloca a escrita em um patamar mais científico, algo importante para o projeto de conservação do alfabeto.

Até o momento, entre os 220 mil caracteres usados pelas praticantes de nushu, foram escolhidos aqueles que apareciam com maior frequência. Em 2015, por exemplo, 397 caracteres nushu foram aceitos pela Organização Internacional de Padronização (International Organization for Standardization – ISO) e, em março de 2017, foi aprovada a proposta da China de incluir caracteres nushu no Conjunto Universal de Caracteres.

Essas conquistas são importantes e demonstram que os esforços para manter uma cultura tão única estão dando frutos valiosos. Quando leio esses dados e repasso para este texto, sinto que, como mulher, eu mesma estou vencendo alguma coisa. Mesmo não sendo chinesa, guardo comigo o que o nushu ensinou: todas as mulheres do mundo pertencem a mesma família. Portanto, comemoro cada conquista voltada para a preservação desse alfabeto.