“Burnout Syndrome” reflete sobre a dificuldade de ocupar espaços
“Burnout Syndrome” é o mais recente BL dos atores Off e Gun. Além de ser o retorno da dupla a uma obra de teor mais sério, esse também é o reencontro dos atores com Nuchy, roteirista e diretora de “Not Me” (2021). O anúncio dos três em um novo trabalho deixou todos muito ansiosos para acompanhar a obra, já que “Not Me” foi um grande sucesso, sendo relevante mesmo cinco anos após seu lançamento.
O BL acompanha Jira (Gun Atthaphan) um artista construindo carreira enquanto também tenta se encontrar por meio de sua própria arte. Quando cruza caminho inesperadamente com Pheen (Dew Jirawat) e Ko (Off Jumpol), Jira se vê preso em uma estranha situação, onde deseja estar com Pheen, seu ideal, mas é o seu complicado chefe Ko quem o desperta e o reconecta aos seus desejos artísticos.
Desde o começo, “Burnout Syndrome” definiu bem o teor de sua história, nos conduzindo por sua atmosfera séria, angustiante, sensual e, de certa forma, crua. E apesar da premissa simples, a trama desenvolve muito bem a complexidade dos personagens e das relações que eles desenvolvem à medida que vão interagindo e a história avança.
Tanto Jira quanto Ko e Pheen são personagens complexos, aqui não tem o bonzinho e o malvado, todos eles são egoístas, mas, ainda assim, sedutores. E o roteiro acerta bem ao desenvolver todas as camadas deles, enquanto no caminho ainda nos leva a refletir sobre algumas questões existenciais, sociais e das relações humanas.
Pela perspectiva de Jira, o drama nos leva a refletir sobre o que é arte e como ela é um reflexo do que somos como indivíduos e também como sociedade. Sobre como, por mais difícil que seja, um artista precisa de sua arte para existir no mundo.
Além disso, “Burnout Syndrome” também aborda o inevitável conflito que existe entre criar arte e produzir arte quando o dinheiro é adicionado à questão. E isso não só do ponto de vista de que viver da própria arte é muito difícil em um mundo capitalista como o nosso, mas também no sentido de que, muitas vezes, quando a arte vira um negócio, é muito fácil esvaziá-la de seu sentido e de sua essência.
Ainda sobre a arte, mais um ponto de discussão trazido pela obra é a grande questão dos últimos tempos: as IAs. O uso dessa tecnologia nos últimos anos tomou grandes proporções e muitos debates foram levantados, principalmente aqueles pautados no uso de trabalhos de artistas para treinamento das IAs para reproduzirem “arte” similar a desses artistas.
Esse debate está longe de terminar, visto que as IAs têm se aprimorado mais rápido do que parecemos estar preparados para lidar com elas, mas o BL proporciona uma boa reflexão neste assunto ao expor diferentes pontos de vista sobre o tema.
Outra reflexão, sob a ótica de Ko, é a questão razão X sentimento. É antiga, mas nunca deixou de ser relevante na história da humanidade, principalmente quando paramos para pensar no mundo em que vivemos e nossa relação com o dinheiro. Ou ainda, muitas vezes fomos tão machucados que nos obrigamos a engolir nossos sentimentos e agir de forma racional para conseguir continuar vivendo. De qualquer forma, os sentimentos fazem parte da nossa essência como humanos, que tipo de vida se vive quando ignoramos nossos sentimentos?
A partir do ponto de vista de Pheen somos convidados a refletir sobre as relações humanas e sobre como, algumas vezes, nos moldamos para nos encaixar em um papel, um lugar, uma posição ou ainda em uma expectativa que às vezes nem é nossa. Com a história dele, vemos como relações de dependência, sendo românticas ou não, são destrutivas e nos corroem de dentro para fora.
Outro ponto explorado é a subjetividade do desejo. Para cada um dos três protagonistas o desejo se manifesta de uma forma diferente e única, muitas vezes difícil para eles próprios entenderem, mas que eles canalizam de alguma forma. Assim vemos a expressão do desejo em forma de arte, apego, desespero, fúria, obsessão e frustração, e a maneira como esses sentimentos são tão bem representados dentro da trama deixa tudo ainda mais crível e de certa forma real.
Além de um roteiro bem construído, é claro que “Burnout Syndrome” conta com boas atuações para dar vida a esses personagens que são o grande destaque do BL. A excelente atuação de Gun não é novidade para ninguém e aqui, mais uma vez, ele entrega um ótimo trabalho dando vida ao Jira. O mesmo vale para Off que incorporou bem toda a frieza de Ko e Dew que retratou bem todo o desespero que seu personagem esconde.
Ainda que o drama tenha sido uma obra excelente, foi impossível não notar que à medida que os episódios foram sendo lançados o BL não parece ter conquistado um grande público, como muitos dos últimos lançamentos. Acredito que isso pode ter acontecido principalmente ao teor da obra, essa não é uma história encantadora e feliz e nem uma tragédia emocionante. “Burnout Syndrome” é um BL sobre pessoas que estão tentando viver suas vidas da melhor forma que conseguem, apesar das dificuldades que enfrentam.
10/10
Burnout Syndrome
Título original:ภาวะรักคนหมดไฟ
Ano de lançamento:2025
Direção: Nuchy Anucha Boonyawatana
Roteirista(s):Nuchy Anucha Boonyawatana, Ben Sethinun Jariyavilaskul