I.O.I. vai voltar. O grupo temporário formado no Produce 101, a “mãe” dos realities de sobrevivência dessa geração, surpreendeu ao anunciar, no domingo (22.02), um comeback com álbum e turnê. Já o Wanna One, nascido da versão masculina do mesmo programa, também prepara retorno, ainda que inicialmente por meio de um programa de TV.
Ambos foram concebidos como projetos temporários e o reencontro agora escancara algo que o mercado parece relutar em admitir: o modelo de grupos com prazo de validade está cada vez mais ultrapassado.
E eles não são casos isolados. Kep1er tinha data para encerrar as atividades e renovou. ZEROBASEONE caminhou na mesma direção. Já o ALPHADRIVEONE, que estreou com um contrato mais longo, de seis anos, deve seguir tendência semelhante. Se as próprias empresas estão encontrando maneiras de driblar o fim desses contratos, por que ainda insistem em um sistema que claramente já não acompanha a realidade do mercado?
Para o k-pop, o grupo temporário é apenas mais uma forma de a indústria substituir artistas. Cria-se um projeto com data para acabar para que sua troca soe minimamente natural. É um descarte disfarçado de renovação musical. Por isso, os reality shows de sobrevivência da Mnet, e similares de outras emissoras, dão tão certo e tampouco devem chegar ao fim tão cedo. A empresa lucra com a produção, o grupo anterior se encerra e o fandom, totalmente órfão, abraça com facilidade o “sucessor” na esperança de preencher um vazio.
Esse descarte naturalizado vai além das formações temporárias. Artistas de grupos considerados “fixos” são negligenciados pelas próprias empresas, já que, em menos de cinco anos de atividade, acabam substituídos por projetos mais novos. É um ciclo vicioso que ainda não imunizou o público e continua causando revolta sempre que ocorre. Dá para contar nos dedos aqueles que não passaram por isso.
Quem também sofre é o fandom. Talvez a pergunta mais adequada não seja por que o sistema ainda existe, mas até quando o público continuará aceitando que seus artistas favoritos sejam tratados como projetos descartáveis. O ZEROBASEONE, por exemplo, teve sua pior semana de vendas com o álbum especial “RE-FLOW” em meio às incertezas sobre o futuro do grupo.
Antes, esse modelo era muito mais sustentável porque tudo realmente tinha prazo para terminar. Grupos anteriores ao Kep1er e ao ZEROBASEONE chegaram ao fim no tempo previsto porque as empresas desses artistas entendiam esses realities apenas como uma porta de entrada. Como pouquíssimos conseguiram ter uma sobrevida significativa após o encerramento das atividades, a renovação contratual deixou de ser vantajosa. É por isso que grupos como o ZEROBASEONE e o Kep1er renovaram. É porque isso que Wanna One e I.O.I. estão voltando. O êxito após o término tornou-se incerto.
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A marca coletiva é, muitas vezes, mais forte do que a individual, já que esse mercado está cada vez mais saturado: toda semana surge algum grupo ou artista de k-pop tentando alcançar o sucesso. E, sejamos sinceros, ainda que o monopólio das grandes empresas tenha perdido um pouco de força nos últimos 10 anos, continuam sendo elas que mandam na indústria e, quando ameaçadas por alguém de fora desse eixo, buscam uma forma de assumir o controle — lembram do SEVENTEEN?
É nesse ponto que o fim da temporalidade se torna necessário, especialmente quando se fala em marca coletiva. Foi por isso que a maioria dos integrantes decidiu continuar no ZEROBASEONE. Claro, visando objetivos individuais, mas compreendendo que a força de cada um se potencializa quando estão juntos.
Só que precisamos ser realistas: o sistema de grupos temporários não deve chegar ao fim tão cedo. Deve haver, sim, hiatos maiores entre um projeto e outro oriundo de realities de sobrevivência, mas com contratos mais ajustados à realidade. O ALPHADRIVEONE, por exemplo, terá cinco anos de foco como grupo, com um ano adicional para outras atividades, como atuação.
No fim das contas, o que está em jogo não é arte, mas estratégia. Enquanto o modelo continuar lucrativo, a temporalidade seguirá sendo moldada conforme a conveniência das empresas. Quem vai sair prejudicado, no fim, será o fã que, vez ou outra, terá que se despedir do grupo que tanto ama.



