Animações são uma espécie de portal de entrada para os amantes de cinema. Seja em stop-motion ou em computação gráfica 2D ou 3D, ficamos hipnotizados com cada elemento, cenário e obviamente, personagens esteticamente diferenciados. E estamos presenciando esse “boom” nos últimos anos com animações asiáticas em relação às produções ocidentais, que parecem estar estagnadas há um tempo.
Em 2024 tivemos animações do Studio Ghibli, Crunchyroll ganhando o mundo e os nossos corações novamente com histórias sobre amadurecimento, luto e amizade. Esse tipo de contexto atrelado a uma estética visual impecável, prende a atenção do público de uma maneira inexplicável. E o fato da sociedade asiática estar começando a ser mais aberta ao tratar questões sensíveis como saúde mental, os estúdios estão levando para as telas esses temas de forma empática e com potencial enorme, fazendo com que nos identifiquemos com essas histórias e queiramos acompanhar cada vez mais. Mas não podemos dizer o mesmo atualmente sobre as animações ocidentais.
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Atualmente, dá para sentir que os grandes estúdios como Disney, Dreamworks estão sem aquela criatividade e qualidade que estamos acostumados a ver. Acredito que a última animação que pudemos dizer “nossa, perfeita”, foi “Viva, a vida é uma festa” (2017). De 2017 para cá, parece que essa criatividade se perdeu em muitos reboots. E crescemos com “Rei Leão”, “O Corcunda de Notre Dame” (este último com trilha sonora impecável tá), histórias cativantes e intensas e a Disney lançava um sucesso bom atrás do outro. Mas por que parou? Um fator que pode explicar esse marasmo de ideias novas, é o crescente sucesso dos streamings, que possuem estúdios com tecnologias de ponta e produzem filmes e séries de forma mais rápida, o que vem tornando a competição cada vez mais acirrada. Não é uma justificativa aceitável, mas pode explicar em parte o que vem acontecendo com essas produções.
Diferentemente dos estúdios ocidentais, os asiáticos muitas vezes ficam décadas sem lançar uma obra nova, mesmo tendo condições para dar continuidade a esse trabalho. Durante a pandemia, conteúdos asiáticos foram válvulas de escape para muitas pessoas por trazerem temas importantes ilustrados de forma empática e contemplativa. Inclusive, essas produções se mostram bem melhor elaboradas e escritas do que as ocidentais hoje em dia. E devido a isso, hoje, o Brasil é o terceiro consumidor mundial de produções asiáticas (animes, filmes, séries, manhwa, dentre outros), enquanto que as produções ocidentais estão cada vez mais rasas, sem um alívio dramático ou cômico, trazendo abordagens repetitivas tanto no roteiro como nas interpretações dos personagens.
As animações asiáticas estão com tudo para esse ano, a começar com a produção chinesa ‘Ne Zha 2’, uma sequência do filme de 2019 e traz uma abordagem moderna para uma das mais populares lendas tradicionais chinesas. No filme, o jovem Ne Zha desafia os deuses para reescrever seu destino. Imagina quando chegar aos cinemas mundiais. Confira o trailer e depois me digam se não vai dar bom mesmo por aqui e em outros países porque na China já passou de 1 bilhão de espectadores!
Seria interessante ver uma reinvenção do cinema ocidental, que sempre era considerado de alto nível. Talvez seja necessário explorar histórias culturais locais como a Ásia está fazendo, ao invés de só ficar preso em reboots. E um país tão grande como os Estados Unidos, tem total capacidade de realizar tal feito e retomar a qualidade das produções. Mas por enquanto, vamos ter que ir nos acostumando com a forma que os estúdios estão lidando com essa estagnação e com a concorrência com os streamings e com a crescente ascensão do cinema asiático. E eu não sei vocês, mas vou ali maratonar (de novo) os filmes do Studio Ghibli, enquanto “Ne Zha” não chega ao Brasil.