Aguardadíssimo desde o lançamento do seu trailer, “10Dance” estreou ontem (18) e entregou muito, mas não exatamente o que prometeu. Assim, entre falhas e acertos, o filme mostra que dança também é arte!

Baseado no mangá “テンダンス / 10Dance” de Satou Inoue (井上佐藤), que inclusive está em pré-venda no Brasil pela editora MPEG, o filme está disponível legendado e dublado em português na Netflix.

ENREDO

Sugiki Shinya (Machida Keita) é um dançarino profissional de dança de salão clássico que mantém um aspecto sério e reservado, mas surpreende a todos ao convidar para participar de uma competição internacional, o bailarino profissional de dança de salão Latina-Americana, Suzuki Shinya (Takeuchi Ryoma). De espírito livre e rebelde, Suzuki que representa exatamente o oposto de Sugiki. Agora, unidos pelo desafio de serem campeões mundiais, eles precisam superar as rivalidades que vão, aos poucos, dando lugar a sentimentos mais fortes.

OPINIÃO

“10Dance” é uma das produções mais esperadas do ano, que nos deixou eufóricos desde a divulgação do trailer. O filme entregou bastante, mas não exatamente o que nos prometeu. Tivemos muita dança, música, boa produção e ótimas atuações, entretanto, o romance, que foi amplamente demonstrado no trailer, ficou em segundo plano. O que parece é que o filme é mais uma introdução ao universo da história e seus personagens do que uma narrativa completa com início, meio e fim.

A verdade é que em “10Dance” os protagonistas são as danças e a relação que os personagens têm com ela e as relações que desenvolvem entre si a partir delas. Enquanto Sugiki representa o cavalheiro perfeito na dança de salão clássica, Suzuki representa todo sentimento envolvente da dança de salão latina.

10Dance

Essa dualidade segue ao longo de boa parte do filme, gerando embates entre os dançarinos enquanto um ensina sua dança ao outro. E é nesse processo de aprendizado que ambos vão conhecendo as nuances, beleza e dificuldades das danças.

Enquanto a dança de salão clássica valoriza a polidez dos movimentos, a dança de salão latina valoriza a liberdade do corpo, mas independente disso, em ambos os casos, a partir da dinâmica dos protagonistas, vemos que na dança técnica e sentimento se complementam. Isso nos leva a refletir sobre a dança como uma forma de expressão e, consequentemente, como uma forma de arte, afinal, como um dos personagens do filme diz, “não existe dança sem emoção”.

Sugiki tem uma técnica impecável, mas lhe falta sentimento ao dançar, é tudo perfeito, mas parece que ainda falta algo; já Suzuki coloca todo o seu sentimento na dança, o que encanta e contagia o público, entretanto as limitações de sua técnica o impedem de alcançar os grandes campeonatos. 

10Dance

Também é nesse processo que as personalidades de Sugiki e Suzuki se contrapõem e aos poucos eles também vão aprendendo mais sobre o outro. É aqui que temos o desenrolar do romance, ou pelo menos deveríamos ter. Apesar do que o trailer pareceu prometer, o sentimento que fica é que o romance entre os dois protagonistas foi mais um clickbait do que qualquer outra coisa, principalmente quando pensamos que o desenvolvimento do romance é importante para o entrosamento de ambos com a dança.

Já dentre os acertos, uma das coisas que de cara nos surpreende no filme é a ausência de filtros que embranquecem os personagens, aqui eles são apresentados com peles um tanto mais bronzeadas que costumamos ver e junto a isso, tivemos um elenco de figurantes bastante diversificado.

Outro ponto-chave da produção é a fotografia belíssima, com cenários muitos bem construídos, criando bem essa dualidade entre as personalidades e universos que os protagonistas fazem parte. E como um filme de dança, a trilha sonora claramente precisava ser à altura. E foi. Houve um equilíbrio entre música clássica e música latina, que obviamente também complementava a ambientação dos lados opostos da narrativa.

Ainda nos acertos, temos a decisão de representar a América Latina a partir de um país, que no caso foi Cuba, e não como um bloco homogêneo. Inclusive quando Suzuki retornava para casa, o público era diversificado e trazia a alegria e descontração calorosa tão nossa.

No entanto, o uso do termo “latino” como uma forma pejorativa e a recorrente associação entre a dança Latino-Americana e a sensualidade desse povo deixou um tanto a desejar, já que numa determinada cena Suzuki demonstra suas conexões latinas de forma caricata, remetendo a “libertinagem”, nos retratando com um comportamento inconsequente e de excessos em busca constante de prazer.

Outro ponto que nos incomodou foi a construção temporal do enredo, não dá para saber exatamente quanto tempo se passa do começo ao final do filme, o que dificultou um pouco a percepção dos acontecimentos.

10Dance

A construção do universo de “10Dance” satisfaz, mas não entrega o tão divulgado romance, afinal os atores têm a química e a história tem o contexto perfeito. Entretanto, tudo isso foi empurrado para um clímax nos últimos minutos do filme, deixando a sensação amarga de querer mais. Esperamos que esse sentimento seja proposital e a Netflix tenha a carta da continuação na manga.

Se você vai dar uma chance para o filme, prepare-se para encontrar uma fotografia maravilhosa, uma trilha sonora impecável e uma química incrível, mas também não vá esperando um “Dirty Dancing: Ritmo Quente”, pois o romance aqui vem em segundo plano.

7/10

10DANCE

Título original: 10DANCE

Ano de lançamento: 2025

Direção: Otomo Keishi

Roteirista(s): Yoshida Tomoko e Otomo Keishi

Elenco: Takeuchi Ryoma e Machida Keita

Duração: 126 min