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Conceito desprezado pela própria indústria coreana, a moda plus size ganha espaço ajudando mulheres se aceitarem e se imporem diante da sociedade.


De violência aos animais à definição de padrões de beleza nocivos, a indústria da moda tem muitos lados cruéis. No caso da moda sul-coreana, a questão dos padrões é ainda mais acentuada. Basta uma busca rápida pelo termo “korean fashion” (moda coreana) para se ver diante de corpos extremamente magros, pálidos, praticamente uniformes e dificilmente alcançáveis. 

“Na Coréia, o termo ‘modelo plus size’ não é apenas estranho, como também não é um conceito no próprio mercado”, explica representante da LSAC Model. A agência recrutou sua primeira modelo plus size no início deste ano: Jeon Gayoung. Segundo a própria empresa, eles foram os primeiros a adicionarem uma modelo plus size ao seu time,  e até então são os únicos em toda a Coreia – a nível de curiosidade, atualmente no Brasil há casos de apenas uma agência ter um casting plus size com quase 20 modelos. 

De acordo com Gayoung, o nicho se expande a passos lentos, caros e virtuais. Isso porque, segundo a modelo, as lojas físicas sul-coreanas disponibilizam apenas roupas de números pequenos, fazendo com que o processo de experimentar e comprar roupas nesses estabelecimentos seja ainda mais difícil para mulheres de medidas maiores. Para Gayoung, este cenário implica ainda no valor das peças, que acabam se tornando mais caras.

Com poucos espaços offline vendendo roupas para todos os tipos de corpos, as lojas online ganham espaço e clientes. A Jstyle Evellet é uma delas. Com mais de 150 mil seguidores no Instagram, a loja começou de um questionamento da CEO YongJa Kim: “por que roupas plus size não são bonitas?”. A partir de então, há dez anos atrás, iniciou-se o desafio de colocar em prática designs atraentes e que vestissem uma variedade maior de corpos. Segundo SeJin Lee, diretora de marketing da empresa, inicialmente as fábricas duvidaram do potencial desses designs: “fizemos nossos próprios modelos e mostramos a eles como vestiam bem as meninas plus size. Claro que levou bastante tempo para que entendessem completamente e tivemos que explicar várias vezes para resolver o problema”, conta.

 

A dificuldade com as fábricas, porém, vai além da compreensão do conceito plus size. SeJin explica que poucas se comprometem em confeccionar peças para este público, e que as que produzem roupas do chamado tamanho regular (P-GG), muitas vezes cancelavam as encomendas ao perceber que as peças plus size exigem uma quantidade maior de tecido. São essas dificuldades, no processo de confecção, que acabam afetando o custo das peças e elevando seu valor de comercialização. 

“Corpos plus size são muito diversos. Mesmo quando você tem o mesmo peso, as formas são muito diferentes uma das outras. Ainda assim, tentamos fazer roupas que possam se encaixar em todas as meninas plus size”, explica SeJin. De acordo com Gyogyo, modelo e criadora de conteúdo da Jstyle Evellet, a empresa não se preocupa apenas com a diversidade corporal, mas também a de produto: trazendo desde biquínis e lingeries à roupas para o dia a dia e academia.

Lojas independentes

Apesar da Jstyle encabeçar o mercado sul-coreano, há  um crescente número de lojas independentes. Segundo a chefe do departamento de estratégia e planejamento da Jstyle, SunAe Jang, essas lojas menores se desenvolvem nas redes sociais, onde as próprias vendedoras são as modelos e compartilham diariamente suas #OOTD (look do dia). Este é o caso de Jeon SeonA, modelo e CEO da loja osoondosoon. Ela começou no mercado ao perceber que a demanda por diferentes estilos estava crescendo na Coreia, e atualmente acumula mais de 23 mil seguidores em sua conta pessoal no instagram

Além dela, modelos como @molding _c, @ps_loveyourself_, e @unilovit tornam possível que outras mulheres tenham acesso a K-Fashion, sem a preocupação de não encontrar seu tamanho.

Vida social

Longe das passarelas e looks do dia, o cotidiano da mulher plus size na Coreia é repleto de complicações sociais. Apesar da pressão estética ser um problema enfrentado por todas as mulheres da Coreia, GaYoung explica que são as mulheres gordas que sofrem com o estigma de relaxadas, preguiçosas e feias. “Quando ando pelas ruas, vou a uma loja de roupas, ou a qualquer lugar, a maioria das pessoas foca em mim, como se eu fosse um macaco no zoológico”, confessa a modelo. 

Já SeonA garante que quando se trata de homens gordos, o estigma se transforma em atributos: “a Coreia tem uma taxa notavelmente alta de obesidade masculina. No entanto, os homens são rotulados com palavras como ‘estável’ e ‘confiável'”, conta. Enquanto isso, as mulheres têm sua saúde questionada, em julgamentos mascarados por falsa preocupação.

Influenciando de maneira negativa a vida de inúmeras mulheres, a relação entre a sociedade sul-coreana e os corpos que não se encaixam em seus padrões, esbarra em diferentes aspectos. Segundo SeonA, até oportunidades de emprego são prejudicadas quando se trata de uma mulher gorda. GaYoung, por sua vez, diz que muitas pessoas acham que relações amorosas estão fora de seu alcance e tem medo de se jogar no mundo. 

Das dificuldades na vida sexual, amorosa e profissional, aos olhares e palavras de julgamento, a vida de mulheres gordas na Coreia pode acabar se tornando mais solitária, além de dificultar o processo de aceitação dos próprios corpos: “hoje já superei, mas foi difícil e levei bastante tempo para curar minha auto-estima ferida”, declara a modelo Daisy, que recentemente debutou no mundo dos MV’s de K-Pop.

 

Representatividade na mídia

“Na mídia sul-coreana, a mulher gorda é frequentemente retratada como objeto de ridicularização e rejeição”, explica SeonA. Ela conta ainda que não teve qualquer mulher no mundo do entretenimento para se espelhar ao longo de sua vida, o que vem mudando somente agora, com a aparição e popularização de nomes como o da comediante Lee GookJu e da modelo plus size Kim JiYang

Daisy, que recentemente estrelou o MV de “Face”, do cantor WooSung (The Rose), agora se vê neste local de referência, até então pouco ocupado. Ela conta que fica emocionada quando recebe mensagens de pessoas dizendo que se sentiram encorajadas por seu trabalho, e que ficou muito animada quando soube da proposta do MV: “sempre quis aparecer em um MV assim. Lembro que quando eu estava no ensino médio, eu brincava de fazer clipes com amigos”, confessa a modelo.

A marca Jstyle também lançou um MV recentemente estrelado não apenas por uma, mas dez modelos plus size. O MV de “Watch Me Now” acumula 2,5 mil views no YouTube e faz parte da campanha “I love myself now”, que busca promover a aceitação e celebração dos corpos entre mulheres plus size. “Queríamos dar chance à meninas que amam dançar mas acham difícil aprender, têm medo de julgamento alheio ou por algum motivo desistiram”, explica a modelo Gyogyo.

Sendo um espaço de maior alcance e menor liberdade, o avanço na TV pode ser ainda mais lento. Recentemente a KBS transmitiu o documentário ‘Project 3 Days’, que retratou um concurso exclusivamente para modelos plus size. Apesar disso, na mesma emissora foi ao ar o drama ‘Perfume’, criticado por propagar a ideia de beleza vinculada a magreza. Ha JaeSook, que interpreta a versão mais velha da protagonista, foi recentemente acusada de glamourizar a obesidade. Na produção ela interpreta Min JaeHee, uma mulher que descobre um perfume que a torna mais jovem — e magra. 

“É um movimento pequeno, mas a sociedade está mudando agora”, explica Daisy. Para ela, as pessoas estão começando a entender esses conceitos atualmente e passando a expressar suas ideias. “A diversidade deve ser respeitada na sociedade coreana”, completa a modelo.


Para a realização desta matéria, a K4US contou com a contribuição de muitos colaboradores. Agradecemos a JStyle por movimentar a equipe, buscando trazer as melhores respostas. Agradecemos também a disponibilidade das modelos GaYoung (e a agência representante LSAC Model), Daisy e SeonA em dividir tão honestamente suas vivências conosco.

Texto e entrevistas por Bea @ Equipe de redação da K4US
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Bea
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Bea
Carioca, 26 anos, jornalista e carmy. Se pudesse passaria meus dias comendo batata frita, sorvete e lendo fluff, como não posso: trabalho, passo mais tempo do que devia no twitter, como batata e leio fluff nas horas vagas. Presa numa areia movediça chamada K-Pop há dez anos (sem previsão de conseguir sair).
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