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A cena da música independente na Coreia vem crescendo e, com ela, a ocupação feminina.


Podemos todos concordar que o grande fenômeno musical atualmente tem sido o K-Pop. A música popular coreana vem ganhando força e espaço em todo o mundo, mas acaba também estreitando o caminho para que outros gêneros e artistas, que não pertencem a esse universo, cheguem ao grande público. É nesse cenário de visibilidade diferenciada que mulheres vem buscando seus lugares na música independente coreana – que vai muito além das melodias calmas e vozes suaves creditadas ao chamado K-Indie.

Em um ambiente caracterizado pela música autoral, a liberdade para criação e execução de seus trabalhos é uma consequência natural e bem-vinda. Para a solista Jane B, esse foi o aspecto que fez com que deixasse de lado a inveja dos idols que a influenciaram durante sua adolescência. “Eu percebi as dificuldades deles, como não são livres em suas músicas e na vida real. Eu queria fazer minha própria música livremente, então naturalmente me tornei um artista independente”, explica a cantora.

Segundo Jiwon, vocalista da banda Billy Carter, a autonomia no trabalho reflete ainda na imagem e comportamento das artistas. Longe de uma indústria como a do K-Pop – onde mulheres necessariamente devem apresentar ao público o pacote que inclui um corpo magro, um rosto obedecendo os padrões estéticos, uma personalidade agradável e pouco desafiadora, além de uma imagem mais próxima possível da inocência – as artistas encontram na cena independente a possibilidade para trabalhar em suas mais sinceras verdades. Para a banda Billy Carter isso significa justamente se desprender das normas que regem o mainstream: “nós realmente não nos importamos com a ‘feminilidade’ da maneira que algumas (na verdade, muitas) pessoas esperam de artistas mulheres”, conta a vocalista.

Mas a independência musical também vem acompanhada de uma série de responsabilidades e dificuldades. “Artistas independentes fazem o que agências fazem”, explica Jane B. A lógica da solista diz respeito ao fato de que, sem grandes empresas para a gerência dessas bandas e cantoras, elas precisam assumir uma posição inteiramente ativa nos processos de criação, produção e divulgação. “Você deve conquistar tudo sozinha. Da produção e lançamento das músicas até o contato com artistas que trabalham no mesmo meio”, explica Nieah, solista que vem contribuindo para o K-R&B Desde 2013.

Jane B conta que uma das maiores dificuldades em fazer parte da cena independente ainda trata da relação financeira entre artista e música. A cantora conta que, por não conseguir se sustentar apenas com suas produções, atualmente trabalha também com aulas de canto. “Mas se um artista independente pode superar esse problema, é realmente atraente”, aponta.

 

Nem o machismo pode impedir

Além da dificuldade de tornar a música uma fonte primária de renda, muitas mulheres na cena precisam encarar também a realidade de uma sociedade regida por homens. “Existem muitas musicistas talentosas na Coréia, mas a maioria das pessoas com poder no mundo dos negócios são homens e dá para ver a forte conexão entre eles. Mesmo que eles não estejam tentando excluir as mulheres, parece natural que homens se unam com mais facilidade e firmeza em uma sociedade patriarcal”, explica Jiwon. Nieah, por sua vez, assimila esse cenário como reflexo dos diferentes valores geracionais que permeiam a Coreia – e o mundo – atualmente. Ela acredita que quando houver uma completa mudança de gerações, o machismo, que, segundo ela, vem melhorando aos poucos, deve deixar de existir.

Para Chris Park, da Korean Indie – conta no instagram dedicada a promover a música coreana independente -, o machismo e assédio que mulheres encontram na cena indie não difere do que se encontra no K-Pop, em outros gêneros ou na sociedade, como um todo. Para ele, o problema se dá também pela socialização de quem perpetua esses comportamentos. “Isso vem mudando na Coreia, mas nem todo mundo cresce e amadurece no mesmo ritmo”, explica. 

Mas enquanto isso não acontece, alguns grupos vêm se articulando para melhorar o ambiente de trabalho na cena. Como outros participantes do meio da música independente, Jina, guitarrista da Billy Carter, vê nos problemas criados pelo machismo um reflexo do que as mulheres enfrentam em qualquer outro ramo profissional. No caso da cena indie, por sua vez, a resposta para essa situação vem na forma de apoio e atividades realizadas entre as profissionais do meio.

A exemplo disso, a banda ajudou a organizar o festival de música WEWEWE, que teve como objetivo promover o trabalho dessas artistas e oferecer espaço para a criação de redes de conexão entre musicistas, escritoras, ativistas, diretoras e outras profissionais interessadas. O evento – parte do projeto de inovação cultural da Plataforma de Participação Juvenil do Ministério da Igualdade de Gênero e Família aconteceu no dia 8 de dezembro, mesmo dia do show do U2 na Coreia, mas isso não afetou a experiência do WEWEWE.

A iniciativa dessa parceria entre as bandas e o próprio ministério aponta para um reconhecimento da necessidade de tornar a cena independente mais receptiva às mulheres. “Há alguns dias, Jina e eu tivemos a chance de conhecer muitas mulheres especialistas em diferentes campos. Algumas delas nos disseram que estavam boicotando os shows ao vivo da cena indie e que pararam de ir por causa da misoginia e machismo propagada pelos músicos”, conta Jiwon.

Feito por mulheres para mulheres, e focado em tornar ambiente mais receptivo à presença feminina, o nível de importância do WEWEWE é um reflexo das experiências que essas mulheres dividiram com as integrantes da Billy Carter.

Segundo o Jiwon, todos os momentos do evento foram inestimáveis e elas puderam compartilhar sobre experiências de discriminação e injustiças por serem mulheres. Elas também puderam mostrar seu trabalho a apoiadores da música indie que também acreditam no valor da igualdade de gênero. “Sentimos que estávamos fortemente conectadas”, ela compartilha.

Rede de contatos que faz o mundo girar

Assim como o WEWEWE, os festivais têm papel de grande importância no circuito independente. Promovendo a troca entre bandas e artistas do meio, além da geração de uma importante rede de contatos, esses eventos permitem que os artistas ampliem seu alcance e cruzem caminhos com cenas de outros países. Este foi o caso da banda Billy Carter, que em 2019 alcançou um alto nível de notoriedade ao chegar até o Rock in Rio.

Foi através de contatos gerados no Zandari Festa – um festival que busca justamente conectar artistas, indústria e públicos de toda nacionalidade – que a banda, em atuação há oito anos, foi convidada a cruzar o globo para ser uma das principais atrações da Rock Street, no Rock in Rio 2019, que tinha como proposta apresentar a música asiática ao público.

Jiwon e Jina, descrevem a passagem pelo evento com a mesma paixão que experienciaram diante do público brasileiro. “Foi lindo e as pessoas foram tão simpáticas e amigáveis. E eu me apaixonei pela Caipirinha!”, expressa Jiwon. Ela conta ainda que “acima de tudo, foi uma grande honra tocar com Andreas do Sepultura, foi o momento épico!”. A guitarrista da banda, Jina, complementa: “foi uma honra estar com todas aquelas pessoas incríveis e realmente espero voltar algum dia. Foi a melhor experiência de festival!”.

As duas estiveram no Rock in Rio entre os dias 3 e 6 de outubro, com o reforço da amiga Bomi na bateria. Juntas, elas tiveram a oportunidade de mostrar, a cada dia, sua música para cerca de 100 mil pessoas, média de público por dia registrada pelo festival neste ano.

 

O que mudou e o que pode mudar

Em um cenário geral, a música independente coreana passou por momentos de adaptação após o nascimento do K-Pop. O gênero se apoiava principalmente na promoção pela TV, que passou a direcionar o consumo de boa parte da população. E assim o circuito de música ao vivo, composto pela música independente e que gerou sucesso a muitos artistas entre as décadas de 70 e 80, acabou perdendo a força diante da lógica industrial executada pela música que começou a fazer sucesso na época.

Inicialmente, nem mesmo o desenvolvimento de novas tecnologias auxiliou no fortalecimento da música independente. Provavelmente porque, assim como a cena, essas tecnologias também estavam passando por adaptações e ainda apresentavam suas limitações. Mas, com a ampliação e aperfeiçoamento de redes online, suas possibilidades também cresceram e propiciaram um ambiente onde a música independente ganhou acesso a novas possibilidades. O K-Pop seguiu crescendo, mas a circuito Indie aprendeu a se organizar nessa nova era: são canais no Youtube voltados especificamente para a cena, contas em redes sociais que promovem estes artistas e a boa e velha música ao vivo que voltaram às ruas, bares e universidades da Coreia com força total.

Mas, para que a música independente se mantenha forte e produtiva, é necessário mais do que apenas espaço e plataformas. Novamente, assim como no caso dos festivais e contatos gerados neles, a visão comunitária de um futuro do circuito independente é de grande importância. “Artistas, músicos e bandas devem se apoiar e seguir tentando elevar a cena a outro patamar”, analisa Chris Park. E no que depender das mulheres na música, essa visão pode ser o futuro mais próximo: “acredito que tenham pessoas olhando na mesma direção e nós continuaremos lutando por um ambiente melhor e pelos direitos das mulheres”, finaliza a Jiwon.

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Texto por Bea| Equipe de redação da K4US
www.k4us.com.br | Não remover sem os devidos créditos.

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Carioca, 26 anos, jornalista e carmy. Se pudesse passaria meus dias comendo batata frita, sorvete e lendo fluff, como não posso: trabalho, passo mais tempo do que devia no twitter, como batata e leio fluff nas horas vagas. Presa numa areia movediça chamada K-Pop há dez anos (sem previsão de conseguir sair).
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