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Homossexualidade no cinema

A partir do momento em que você não precisa agradar ao gosto comum dos telespectadores de casa, encontra-se um ambiente de liberdade criativa bem maior. Acreditamos que essa falta de compromisso com a necessidade de produzir algo dentro da área de conforto do público geral, seja uma chave para o melhor desenvolvimento e maior veracidade ao retratar relações homossexuais no mercado cinematográfico, por exemplo.

Para além dos blockbusters que passam na maioria dos cinemas, temos o chamado circuito de arte, onde se encaixam os filmes independentes e aqueles que não são adquiridos por grandes redes de cinema por, supostamente, não atrair grande público. Existem até mesmo redes de cinema menores que dão prioridade para esse tipo de produção. Então, para que alguém realmente assista esses filmes, o interesse, normalmente, vai partir da própria pessoa.

Saindo um pouco dessa lógica de mercado e voltando pro conteúdo lgbtq+: a Coreia do Sul possui alguns filmes na temática que são verdadeiros sucessos tanto dentro do próprio país, quanto internacionalmente. “King and the clown” (2005), de Lee JoonIk, se passa no século XV e conta a história da complicada relação entre um rei e dois palhaços de rua. O filme contradiz a ideia de que a Coreia não está preparada ou rejeita por completo produções que retratam relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero, visto que até hoje o longa-metragem está entre as 10 maiores bilheterias do país.

“A criada” (2016), de Park ChanWook, uma adaptação do livro Fingersmith, de Sarah Waters, retrata, de forma natural e destemida, o amor entre duas mulheres em uma história permeada por sedução, vingança, muitos plot twists. Uma dupla de vigaristas se envolve em um plano para roubar Hideko, herdeira de uma família japonesa: a mulher, SooKee assume o papel de sua criada, enquanto o homem se faz passar por Conde Fujiwara, um pretendente. A ideia era que, como criada, SooKee influenciasse a herdeira a se casar com o Conde. Eles só não esperavam que as duas se apaixonassem. A produção alcançou um sucesso considerável até mesmo em território nacional, mas a grande conquista foi fora da Coreia do Sul. A estreia do filme ocorreu em um dos maiores festivais de cinema do mundo, o Festival de Cannes, onde concorreu ao prêmio principal. Um detalhe importante sobre “A criada” é que o filme contém cenas de sexo explícito entre as protagonistas, mas nesse caso entramos em uma discussão sobre a fetichização do sexo entre mulheres que, muitas vezes, auxilia na aceitação de produtos que contenham esse tipo de cena.

Esses são apenas dois exemplos de filmes sul-coreanos com temática homossexual que atingiram grande sucesso, mas existem outros, que apesar do nível de popularidade menor – em relação aos citados anteriormente –, não deixam de demonstrar relações e a realidade de pessoas da comunidade de forma muito mais honesta e menos velada, como acontece em produções de TV. Exemplos disso são os filmes “Dois casamentos e um funeral”, “Just Friends?” e “Spa Night” (que apesar de ser uma produção estadunidense, conta a história de um jovem coreano-americano descobrindo sua sexualidade).

Um ponto que não difere as produções coreanas das demais produções ao redor do mundo é a relação homossexualidade x tragédias. Esse é um fator que a comunidade tem lutado para combater já há algum tempo – e ocorre em alguns dos filmes citados acima. Na maioria das vezes, as histórias que envolvem relações lgbtq+ carregam uma forte carga de sofrimento e, em alguns casos, terminam em mortes. Entendam que não ignoramos o sofrimento diário de quem pertence a esse grupo, mas reduzir nossa representatividade à apenas isso é um tanto cruel. Por isso, quando nos deparamos com uma representação simples e leve (como no caso do MV do cantor Holland) nos empolgamos tanto. De toda forma, com isso dito, já podemos entender que mesmo que a passos lentos, a Coreia não fica tão atrás dos outros países.

Cena de “Dois casamentos e um funeral”

Ainda existe um longo caminho a ser percorrido para a representatividade homo e lgbtq+, no geral, se tornarem um fator consistente na mídia coreana. Ainda assim não podemos negar que atualmente existe o indício de um progresso promissor, seja na TV, no cinema ou na música (próximo texto da série). E o mais importante disso é que pessoas lgbtq+ coreanas também possam se ver representadas. Estamos vivendo um momento em que as minorias não apenas reivindicam seu espaço de direito, mas também o conquistam. Por sermos um portal voltado para a cultura pop coreana abordamos o espectro coreano – de um ponto de vista estrangeiro e ocidental -, mas estamos aqui para apoiar a diversidade e isso inclui qualquer canto do mundo.

 

>>Confira também a primeira parte da série:
Homossexualidade na Tv coreana

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Bea
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Bea
Carioca, 25 anos, estudante de jornalismo e carmy. Se pudesse passaria meus dias comendo batata frita, sorvete e lendo fluff, como não posso: trabalho, passo mais tempo do que devia no twitter e como batata e leio fluff nas horas vagas. Parte da equipe da LO짱 (Lojjang) e presa numa areia movediça chamada K-Pop há 9 anos (sem previsão de conseguir sair).
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