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Elas conversaram com a K4US sobre como é oficializar a união, em um país onde casamentos LGBTQ+ não tem reconhecimento legal.


Na última semana, dois casais de mulheres viralizaram com seus ensaios fotográficos de casamento. Não só o fato das fotos serem adoráveis tocou o público, mas também o fato de se tratar de cidadãs de uma país que não reconhece a união entre pessoas do mesmo gênero: a Coreia do Sul.

Antes mesmo de chegar aos jornais – com a surpreendente manchete “O conceito de “família” em nossa sociedade está mudando pouco a pouco” – a história de um dos casais já era conhecida por dar indícios de um possível progresso na sociedade globalmente conhecida por seus costumes tradicionais e conservadores. Isso porque, ao solicitar uma licença para lua de mel – algo comum de se conceder aos casais héteros na Coreia -, uma dessas mulheres teve seu pedido atendido, sem qualquer ocorrência de preconceito. E a história se repetiu com o nosso casal de entrevistadas da terceira parte da série Coreia LGBTQ+

+ Leia aqui a primeira e segunda entrevista da série

Identificadas pelas iniciais “J” e “D”, as duas se conheceram há pouco mais de um ano e agora, aos 23 e 24 anos, respectivamente, decidiram dar o próximo passo na relação. O casamento acontece em fevereiro de 2020, mas os preparativos já estão em andamento, e elas contaram um pouco sobre as experiências que envolvem o momento que estão vivendo – além de comentar um pouco sobre a situação política do país em relação a comunidade LGBTQ+. 

O casamento tem todo um histórico heterossexual, o que acaba levando muitos casais LGBTQ+ a pular essa tradição e simplesmente passar a morar junto. O que fez vocês decidirem pelo casamento? 

J: Não há nada de especial em tomar uma decisão por casar. Assim como muitos casais héteros escolhem o caminho do casamento, quando ganham mais confiança um no outro, nós também escolhemos. 

Há quanto tempo vocês estavam juntas quando decidiram oficializar a união e como foi o pedido? 

J: Tem um pouco mais de um ano desde que nos conhecemos. Após a empresa da minha esposa confirmar que ganharíamos os benefícios de casamento, assim como casais heterossexuais, ela começou a se preparar para o casamento. Depois de um tempo, eu fui pedida em casamento em um hotel. Foi bem comum [em comparação aos outros], mas foi um pedido bem romântico para mim.

Casar com a mulher que você ama, em uma sociedade que não aceita seu relacionamento, é um ato de coragem. Foi difícil para vocês assimilarem a ideia de casamento como um próximo passo na relação de vocês?

D: Não. Desde o início, nós tínhamos uma ideia concreta sobre casamento. Pensamos que deveríamos fazê-lo, caso tivéssemos a chance para isso.

De acordo com sua bio no twitter, vocês se casam no próximo ano, certo? Como tem sido o processo? Vocês vão a outro país?

J: Na Coreia, nós não podemos registrar nosso casamento porque casamentos do mesmo gênero não são legalizados ainda. Ao invés disso, como os héteros, nós decidimos ter um cerimônia como qualquer outra. 

D: Mas se o tempo permitir, eu planejo registrar uma declaração de casamento em outro país. 

J: Estive muito ocupada me preparando para me casar. Há não muito tempo atrás, eu conclui um ensaio com a ajuda de um fotógrafo. Agora preciso pegar meu vestido e fazer mais um ensaio para o álbum de casamento. Tenho um dia o ocupado. Estamos muito ansiosas para isso.  

Quais são suas expectativas para esse dia? Vocês terão amigos e família com vocês? 

J: Eu convidei meus amigos e colegas de trabalho. Ainda não caiu a ficha, mas me preocupo em chorar.

Você disse que a empresa da sua esposa assegurou a ela os benefícios garantidos também a casais héteros. Você acha que isso aponta para uma naturalização [do relacionamento entre pessoas do mesmo gênero]? Você acha que as empresas, as pessoas, principalmente as mais jovens, estão abrindo a mente sobre isso?

J: A percepção pública está mudando cada vez mais. A forma de pensar, flexível e expansora dos mais jovens, aceita [esses relacionamentos] naturalmente. E uma vez que essa atmosfera é criada, surge a ideia de que “discriminação é ruim”. Talvez essa seja a razão pela qual a empresa da minha esposa decidiu conceder a ela os mesmos benefícios de casamento [dos casais héteros]. 

Antigamente, não havia informação sobre ou representatividade homossexual, então, quando as pessoas pensavam sobre homossexualidade, elas tratavam [o assunto] como algo assustador ou até mesmo irreal. Mas com histórias sendo contadas, expondo [a sociedade] direta ou indiretamente, naturaliza-se a ideia de que [pessoas LGBTQ+] existem, e então as pessoas compreendem que não são diferentes. Por isso eu compartilho sobre minha vida de casada nas redes sociais. 

De fato, como muitos coreanos estão cada vez mais conscientes da homossexualidade, acredito que a questão da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo será resolvida positivamente o mais rápido possível.

O seu ensaio fotográfico de casamento foi o segundo de um casal lésbico a se tornar viral na última semana (ao lado das fotos da Kyujin e esposa). Como você se sente sobre isso? Você recebeu muito apoio?

J: Eu fiquei um pouco surpresa em receber mais atenção do que eu esperava, mas fico agradecida pelo apoio que recebi de tantas pessoas. Fiquei muito impressionada. Gostaria que quem visse essas fotos se sentisse encorajado.

Levando em conta esses virais, você conhece muitos casais coreanos LGBTQ+ que sejam casados? 

J: Até pouco tempo, a existência de lésbicas na Coreia mal era reconhecida. Mas recentemente tenho assistido elas se casando e vivendo juntas através do YouTube e outras mídias. Acho que é algo que acontecerá mais no futuro.

Nem todos o casal coreano pode ir a outro país para oficializar a união. Existe algum projeto de lei ou discussão para legalizar o casamento entre pessoas do mesmo gênero na Coreia?

D: Na Coreia, tem um site onde o governo e a população podem discutir pautas e existe uma contínua petição para a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. No passado, muitas lésbicas viveram escondidas, mas as pessoas que se assumem são constantemente expostas à mídia e a presença delas está se tornando cada vez mais aparente. Redes de TV e vários Youtubers também começaram a abordar bastante o tema. Mas a maioria dos legisladores e pessoas de meia-idade se opõem a isso.

Qual exatamente é a experiência de vocês, como um casal lésbico, na Coreia, um país conhecido por seu preconceito em relação às minorias? 

J: Bom, as pessoas deduzem que me relaciono com um homem, claro. Tipo, perguntam “você tem um namorado?”. Mas tenho certeza que isso não é nem uma experiência só das lésbicas coreanas. É um problema do modo heteronormativo de pensar. Depois de conhecer minha esposa, eu nunca escondi o fato de ser lésbica para não passar por esse tipo de situação.

D: Quero falar sobre sexo. Quando falamos sobre lésbicas, a maioria dos homens pergunta como mulheres fazem sexo uma com a outra. Foi a mais grosseira de toda discriminação pela qual já passei. 

J: Também tem o fato de que, já que a Coreia ainda não tem o conceito de casamento entre pessoas do mesmo gênero legalizado, nós não podemos receber todos os benefícios que outros casais podem receber do governo, como incentivos fiscais, aluguel de casas e outras coisas.

Vocês tiveram algum exemplo LGBTQ+ enquanto cresciam? Como vocês se sentem em se tornar esse exemplo para a juventude coreana LGBTQ+?

J: Infelizmente, eu não tive. Conforme eu cresci, tive que passar por uma tremenda confusão e depressão por conta da minha identidade de gênero. Então meu exemplo LGBTQ+ sempre foi eu mesma e assim deve continuar. É bem solitário, na verdade. Para prevenir que outras pessoas passem por essa confusão, eu realmente quero que, desde a adolescência, elas possam sentir – quando elas virem meu amor, meu casamento e minha vida ao lado da minha mulher – que amar alguém do mesmo gênero também é natural.

Recentemente fomos informados de que existe uma resistência crescente, entre os políticos conservadores, sobre a crescente confiança e luta das minorias, especialmente a comunidade LGBTQ+. Eles querem modificar a lei de proteção aos direitos humanos, certo? Você acredita que existe alguma chance deles conseguirem isso? 

J: Acho que a política é uma luta em que as muitas vozes, eventualmente, ganham. Muitas pessoas queers estão aumentando suas vozes, e vozes altas eventualmente agem como poder político. Nós estamos lutando contra a lei que nega a nossa razão de ser, e acho que isso é bem gradual, mas se desenvolve pouco a pouco. 

Na verdade, há muitos anos atrás, tivemos o primeiro parlamentar que afirmou os direitos gays. É bem raro, mas acho que nossos direitos humanos progrediram. Na Coreia, a maioria dos mais velhos (especialmente políticos) ignoram conscientemente a homossexualidade. Em particular, existe uma tendência forte de pensar que é prematura a legalização do casamento entre pessoas do mesmo gênero. Mas, como você sabe, o maior obstáculo para o antigo movimento negro pelos direitos humanos não foram os terroristas cheios de raiva dos negros, mas os homens brancos com o poder de afirmar que ainda não era hora [para esse progresso].

A situação dos homossexuais é totalmente consistente com isso. Em particular, a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo é difícil na Coréia não por causa da percepção das pessoas, mas porque quem é capaz de mudar a legislação, não acha que precisa resolver esse problema. 

Quando nosso casamento se tornar natural, e não algo especial, será o mundo mais valioso para nós. Portanto, até lá, não perca sua chance de escolha. 

– D


Agradecemos à dedicação do casal nesta entrevista e
a coragem por dividir suas experiências conosco.

Entrevista e tradução por Bea | Equipe de redação da K4US
www.k4us.com.br | Não remover sem os devidos créditos.

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Bea
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Bea
Carioca, 26 anos, jornalista e carmy. Se pudesse passaria meus dias comendo batata frita, sorvete e lendo fluff, como não posso: trabalho, passo mais tempo do que devia no twitter, como batata e leio fluff nas horas vagas. Presa numa areia movediça chamada K-Pop há dez anos (sem previsão de conseguir sair).
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