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Em um país considerado um dos maiores mercados de games do mundo, 40% dos jogadores são mulheres. Apesar disso, elas ainda precisam lutar para serem aceitas na comunidade e o FAMERZ é prova disso.


Artigo de opinião

A Onda Hallyu, em sua definição original, vai muito além do K-Pop. Iniciado na década de 90, o movimento abrange todo produto cultural pop vindo da Coreia do Sul, incluindo produções audiovisuais, como filmes, dramas e até mesmo games.

Para muitos fãs da cultura coreana a música e os dramas já são rotina, mas os jogos nem sempre fazem parte disso, sendo mais populares na comunidade gamer em si. Segundo o painel Divas of South Korea’s Game Industry (Divas da indústria de jogos sul-coreana), realizado pela mídia independente Korea Exposé*, a Coreia do Sul é um dos maiores mercados de games do mundo  e atualmente seus jogadores são 60% homens e 40% mulheres. Assim como no Brasil, essas jogadoras enfrentam um meio misógino, no qual até mesmo precisam mentir seu gênero para uma melhor aceitação. Mas desde 2016, a comunidade feminina de gamers coreanas conta com um grupo feminista chamado FAMERZ, que busca tornar o ambiente mais receptivo à presença de mulheres.

 

O início

Feminismo que vai da militância online até o comércio de produtos temáticos

O grupo se formou em uma conjuntura diferente da esperada. Em conversa com a K4US, Anna, uma das representantes do FAMERZ, contou que tudo começou durante os protestos a favor da renúncia da, então presidente, Park GeunHye, em 2016. Ao perceberem que até mesmo os protestos as colocavam em situações de risco por assédio sexual, as mulheres que protestavam formaram a “Feminist Zone” (Zona Feminista), para proteger umas as outras. As gamers que estavam neste grupo, desde então, passaram a jogar juntas e se envolver em atividades feministas – como palestras e protestos.

O grupo, que inicialmente atendia pelo nome de D.VA (National D.Va Association), não se reúne atualmente como fizeram nos dois últimos anos, mas está trabalhando para abrir uma comunidade online. “Nós realizamos e participamos de protestos e palestras sobre temas feministas e também trabalhamos em diversos projetos que denunciam o machismo na indústria dos jogos”, conta Anna sobre as atividades do grupo, que também administra uma conta no Twitter especificamente para denúncias de discriminação contra jogadoras.

 

Silenciamento e apagamento: as dificuldades de jogadoras e funcionárias

Integrantes do FAMERZ em painel realizado pela Korea Exposé

De acordo com a representante do FAMERZ, existe um comprometimento por parte dos jogadores e empresas de jogos em ignorar a existência das mulheres que jogam. Se utilizando do argumento “mulheres não jogam”, eles excluem a presença feminina da indústria e cultura gamer, mas quando as mulheres tentam ser notadas por essa mesma indústria, os homens se utilizam de violência verbal e assédio sexual para eles mesmos garantirem que mulheres não joguem.

Não sendo o suficiente o assédio online, as gamers também sofrem as consequências do machismo exacerbado no dia a dia. Segundo o FAMERZ, mulheres estão deixando de frequentar PC Bangs (lan house que ainda estão muito vivas na Coreia do Sul) em busca de evitar que estranhos as abordem enquanto jogam. Novamente, assim como no caso da premissa de “mulheres não jogam”, a causa principal para o argumento “mulheres não gostam de PC Bangs” reside no comportamento dos próprios homens, que, através de assédio verbal e sexual, se certificam de que a experiência de uma mulher neste ambiente seja a menos confortável possível.

Segundo Anna, o problema vai além das consumidoras de jogos e se estende para as mulheres que trabalham dentro da indústria. Quem manifesta qualquer apoio à causa feminista corre o risco de ter suas contribuições para os jogos apagadas ou até mesmo perdem o emprego. Em alguns casos, as punições severas podem também envolver a exposição pública da pessoa em pedidos de desculpas. Em um dos casos relatados por Anna, um funcionária enfrentou tudo isso pelo simples fato de ter curtido alguns tweets sobre feminismo.

 

Objetificação feminina e o machismo enraizado

K/DA, grupo virtual de K-Pop do LoL

Por um lado a falta de liberdade das mulheres que trabalham com jogos, por outro, a total abertura para que homens realizem suas fantasias através do desenvolvimento de personagens femininas. “Todas as personagens femininas de League of Legends são estranhas e me deixam desconfortável. Os desenvolvedores modelam todas elas com peitos tão grandes quanto suas cabeças”, comenta Anna sobre a objetificação do corpo feminino vista no jogo. Fator que aponta para a total falta de comprometimento na representação de mulheres e o reforço da ideia de beleza vinculada a um  padrão corporal único (magro), ambos sintetizando a ideia da personagem feminina como um produto feito de homens e para homens.

Apesar da existência do FAMERZ e o crescimento da onda feminista na Coreia do Sul, ainda há um longo caminho para que as mulheres do país vivam tranquilamente e nem mesmo as novas gerações de homens estão contribuindo muito para isso.

“Existe uma comunidade online chama “IlganBest” (algo próximo de “O melhor do dia a dia”). Este site foi feito há cerca de 9 anos atrás e é majoritariamente frequentado por jovens homens de extrema direita. Nesta comunidade, eles usam termos como “sam-il-han” (para dizer que “mulheres devem apanhar uma vez a cada três dias”) e “bo-jeon-kkae” (para “você deveria colocar uma lâmpada na vagina e quebrá-la”) o tempo todo e ainda postam fotos tiradas ilegalmente de suas irmãs e namoradas. E surpreendentemente o Ilbe vem mantendo seu lugar no ranking de sites com maior número de presença masculina.”

– Anna, FAMERZ

 

E no Brasil?

Projeto brasileiro busca formar equipe feminina profissional em LoL

Apesar das diferenças entre as sociedades brasileira e sul-coreana, a realidade dos dois países no campo dos games não é tão diferente. No Brasil, o que provavelmente mais se aproxima da proposta do FAMERZ, é o grupo de facebook League of Divas (LoD), que tem como objetivo reunir o público feminino e LGBTQ+ do LoL.

Além do LoD, recentemente vem está se formando o primeiro time feminino profissional de League of Legends, o Athenas e-Sports. “Percebemos a falta de mulheres no universo profissional de League of Legends e isso nos fez buscar meninas que realmente quisessem entrar como pro players em cena”, conta Bianca Muniz, CEO do projeto. Segundo ela, existe uma grande dificuldade em simplesmente ser levada a sério por jogadores homens e contactar patrocinadores interessados em um projeto exclusivamente composto por mulheres, fazendo com que a presença feminina seja limitada a campeonatos amadores.

“O machismo existe dentro do Lol, dentro do CS, dentro de qualquer jogo eletrônico competitivo. Mas, quando falamos do jogo mais jogado do mundo e vemos que não existe nenhuma equipe feminina no Brasil que represente a comunidade, algo está muito errado.Estamos aqui para mudar isso.”

– Bianca, Athena’s

Tanto Coreia do Sul quanto Brasil parecem ter uma grande parcela de pessoas que ainda não entenderam a finalidade do feminismo, por isso, muitas vezes as mulheres que estão neste meio precisam explicar continuamente o óbvio. “Não quero que as pessoas pensem que estamos acima dos homens a qualquer custo, mas quero que pensem que somos iguais, com o mesmo potencial e a mesma garra de vencer”, aponta Bianca.

Iniciativas como a do FAMERZ e Athena’s e-Sports mostram a insatisfação com a forma como as mulheres e meninas vem sendo tratadas no mundo dos games. Mas não só isso. Aponta também para o fato de que, na dificuldade ou não, a união feminina pode nos levar longe.

Documentário sobre a nova onda feminista na Coreia do Sul, com participação do FAMERZ

“Estamos emocionadas só por você nos conhecer e nos procurar. É trágico que mulheres em diferentes países, falando diversos idiomas, sempre enfrentam o mesmo ódio e discriminação, se sentindo da mesma forma e se unindo através disso. Mas ao mesmo tempo em que nos confortamos, percebemos que temos IRMÃS por aí, lutando como nós. É maravilhoso.

Nós continuaremos lutando por futuras jogadoras até que elas possam jogar tranquilamente.

Nós jogamos para ganhar”

– Anna, FAMERZ

 

Confira abaixo a entrevista na íntegra

K4US: Como vocês se uniram e formaram o FAMERZ?

Anna: Nós, Famerz, nos reunimos para exigir a renúncia do ex-presidente no inverno de 2016. O número de pessoas reunidas no comício foi de mais de 10 milhões, o que foi esmagadoramente tomado de espíritos revolucionários. No entanto, mesmo nessa manifestação, nenhuma mulher estava livre de perigo e desprezo por agressão sexual.
Contra isso, as mulheres que participaram da manifestação fizeram a “Zona Feminista”. Nessa zona, ficamos juntas contra palavras misóginas e ajudamos umas as outras quando algo acontecia, como assédio sexual. Naquele tempo, as gamers feministas que estavam juntas nesta zona, formaram um grupo, jogando juntas e realizando atividades feministas.

Bandeiras do grupo durante protestos a favor da renúncia da ex-presidente

K: Quantos membros o grupo tem agora?

A: Depois do estabelecimento, ativistas administraram o grupo e realizaram pequenas reuniões não públicas com nossos membros (que eram menos de 100 pessoas) nos últimos dois anos. Atualmente, fechamos as reuniões de associação e estamos trabalhando em uma comunidade online que será aberta em breve.

 

K: O que as integrantes do FAMERZ fazem? Vocês só jogam juntas? Vocês denunciam comportamentos machistas? Conte-nos um pouco sobre como a FAMERZ opera em nome das integrantes.

A: Fazemos muitas atividades como jogadoras feministas na cultura coreana de jogos. Realizamos ou participamos de protestos e palestras sobre temas feministas. Além disso, trabalhamos em vários projetos contra o machismo no campo dos jogos .No ano passado, abrimos um evento chamado ‘FeGTA (Femi-Gamers Take Action)’ inspirado no GeekGirlCon do filme ‘GTFO: Get the F & #% Out’.
Temos também uma conta no Twitter, a ‘Account for Reporting Misogyny in Gaming Field’ para descobrir sobre a discriminação que jogadoras sofrem no campo dos jogos. Você pode visitar nosso tumblr para mais informações sobre nossas atividades – ele tem breves descrições, em inglês, do que fizemos.

 

K: Vocês enfrentam muitas reações negativas por causa do grupo?

A: Provavelmente todas as feministas na Coreia estão cientes da reação negativa. Entre outras áreas na Coreia, o campo de jogos é especialmente afetado pela reação negativa, por conta da proporção extremamente alta de homens.
Quando nossa organização tinha acabado de se estabelecer, eles nem sequer reconheceram a existência de jogadoras no campo/cultura de jogos. Naquela época, dezenas, centenas de posts maliciosos foram enviados em sites dominados por homens. Assim como fizeram com outras feministas, os comentários foram, em sua maioria, sobre nossas aparências ou assédio sexual. Alguns chegaram até a assediar sexualmente a D.va do jogo Overwatch porque ela era nossa mascote naquela época (eles pensaram que nos atingiram fazendo isso. Tão baixo).
Gostaríamos de acrescentar mais algumas palavras sobre comentários negativos, embora não seja nossa própria questão. Depois do feminismo reiniciar na Coreia, a verificação de jogadores masculinos, nas empresas de jogos, tornou-se um problema sério. Os trabalhadores que comentaram sobre feminismo (usando palavras feministas em suas redes sociais, apoiando questões de feminismo) foram demitidos ou seus trabalhos foram excluídos dos jogos. Este incidente aconteceu com muita frequência este ano.
Serem demitidos e terem seu trabalho apagado não foi tudo. Os trabalhadores tiveram que postar um pedido de desculpas e uma entrevista com o representante da empresa como um anúncio oficial nos sites de jogos.
Essa reação absurda aconteceu porque uma funcionária curtiu alguns tweets sobre feminismo e essa curtida mostra alta probabilidade do “anti-socialismo” de sua ideologia e pode se tornar um “ato criminoso”. Você pode acreditar nisso?

Barraca de produtos com temáticas feministas durante evento no Dia Internacional da Mulher

K: A Coréia é conhecida como uma sociedade conservadora. Você vê isso mudando com a nova geração?Você acha que a Onda Feminista Coreana tem um impacto na sociedade de hoje?

A: Se você está questionando sobre o conservadorismo dos homens, nunca podemos dizer que a nova geração é melhor que a mais antiga. Existe uma comunidade online chamada ‘IlganBest, que significa DailyBest (a.k.a Ilbe na Coréia). Este site foi criado há cerca de 9 anos e a maioria dos jovens de extrema direita está lá. Nesta comunidade eles usam palavras como ‘sam-il-han (abreviação para ‘mulheres devem ser espancadas uma vez a cada três dias’)’, ‘bo-jeon-kkae (abreviação para ‘você deve colocar uma lâmpada na vagina e quebrá-la’)’ o tempo todo e fazem upload de fotos tiradas ilegalmente de suas irmãs ou namoradas. E, surpreendentemente, o Ilbe tem mantido seu ranking como o maior número de acessos para sites online masculinos.
As mulheres definitivamente mudaram. Desde o Feminism Reboot, as feministas aumentaram notavelmente em número e continuam aumentando, tornando-se mais comuns na Coréia. As mulheres fecharam um site (que tinha mais de 1,2 milhões de membros) que é usado para compartilhar ilegalmente fotos e vídeos de mulheres. Elas também vão para a rua principalmente por “questões sobre o direito ao aborto ou punição por filmagem ilegal / violência sexual cibernética”.
Antes da ação “Me too” em Hollywood, na Coréia, já havia um movimento similar de hashtag #sexual_violence_in_ () _ field, que levou a denúndia de muita violência sexual. Certamente a reação está ficando mais forte à medida que a onda de feminismo atingiu a Coréia.
Hoje, antes de escrever isso, duas mulheres foram espancadas por quatro homens até que seu crânio fosse exposto. Esses homens agrediram e chamaram as duas vítimas de “feministas” porque não usavam maquiagem e tinham cabelo curto. É tão difícil acreditar que essas duas mulheres foram espancadas só porque eram feministas. A reação é extremamente dura aqui.*

*O caso ainda está em andamento e, apesar de algumas evidências apontarem para o fato das mulheres terem iniciado a briga, o fato de terem sido brutalmente espancadas não deveria ser diminuído. Vale refletir sobre a relação de poder e punição dos homens sobre as mulheres.

 

K: Acredito que vocês possam ter visto o debut do K/DA. Já que é um girl group formado por personagens femininas do League Of Legends, estou curiosa sobre sua opinião sobre o projeto.

A: Uma mulher que veste roupas mostrando a barriga e o peito dizendo “Você não é páreo para mim, porque eu sou um rosto perfeito para a imagem” parece um exemplo perfeito de insulto referido em muitos livros de feminismo. Todas as personagens femininas de League of Legends são estranhas e me deixam desconfortável. Os desenvolvedores modelam os seios de cada personagem tão grandes quanto suas cabeças. Não sei se você ouviu falar da terrível notícia de que a RIOT GAMES foi processada recentemente por sexismo. Não é tão enganoso fazer upload de vídeos que objetificam sexualmente mulheres quando processos judiciais sobre a cultura de sexismo da empresa estão em andamento? Vou anexar este link que você pode usar como referência (https://kotaku.com/inside-the-culture-of-sexism-at-riot-games-1828165483 / http://meagan-marie.tumblr.com/post/176788011970/six-months-at-riot-games).
Eu joguei League of Legends por mais de 5 anos. No entanto, eu apaguei o jogo porque o processo e o vídeo da K/DA estão me enojando..

Noite em apoio as gamers queers organizado pelo FAMERZ

K: Qual é a sua perspectiva para a presença feminina no campo dos jogos?

A: Jogadores do sexo masculino e empresas de jogos dizem que “as mulheres não jogam” e excluem as mulheres da cultura e da indústria dos jogos. E quando as mulheres se manifestam para provar sua existência, os homens as fazem sair da cultura/indústria de jogos, atacando-as com palavras violentas ou assédio sexual. Então, eles apenas dizem isso de novo: “as mulheres não jogam”.
Alguém do nosso grupo não conseguiu usar o chat de voz até se juntar ao Famerz. Ela estava com medo de ser atacada por homens quando eles descobrissem que ela é mulher. Portanto, para ocultar seu gênero, ela nunca usou o bate-papo por voz. Depois que o Overwatch foi lançado, muitas pessoas perceberam que esse “medo” não é apenas paranóia de uma mulher, porque foi comprovado na Coréia que muitas mulheres foram atacadas por homens no chat de voz. ENGRAÇADO.
Alguém diz que a cultura do PC Bang (Internet café) é legal, mas nessa cultura as mulheres são novamente apagadas. Quando uma mulher joga no PC Bang, os homens vêm até ela e tentam ensiná-la, correm para ela ou falam dela com amigos secretamente, ou até mesmo as escutam secretamente. Nas comunidades de jogos, fofocas como ‘testemunho de mulher em PC Bang’ são postadas ocasionalmente. Mais e mais mulheres não podem ir ao PC Bang, estando cansadas desses homens estranhos que as deixam desconfortável. Então os homens apenas dizem “As mulheres não gostam de PC Bang”.
Agora sabemos que as mulheres no campo dos jogos são atacadas quando alguém descobre que são mulheres. Esta é a razão pela qual decidimos expressar nossas demandas. Para fazer os homens perceberem que uma pessoa que eles chamavam de “mano” no jogo é na verdade uma mulher que não está falando. Até agora as mulheres no campo de jogos foram apagadas e silenciadas, mas agora nós, mulheres, somos quem tem as vozes mais altas aqui.


A equipe da K4US agradece a disponibilidade da Anna e do FAMERZ em responder nossas perguntas e garantir uma entrevista tão completa e esclarecedora. Agradecemos também a Athena’s e-Sports, a quem desejamos toda sorte e força para trilhar em um caminho onde tantos homens tentam dificultar o trajeto.

*Korea Exposé é uma mídia independente sul-coreana que busca ampliar as narrativas jornalísticas do país.
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Bea
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Bea
Carioca, 25 anos, estudante de jornalismo e carmy. Se pudesse passaria meus dias comendo batata frita, sorvete e lendo fluff, como não posso: trabalho, passo mais tempo do que devia no twitter e como batata e leio fluff nas horas vagas. Parte da equipe da LO짱 (Lojjang) e presa numa areia movediça chamada K-Pop há 9 anos (sem previsão de conseguir sair).
Arquivado em: Entrevista, Exclusivo